quarta-feira, 25 de julho de 2018

As rebeliões nas províncias


Durante as Regências, explodiram nas províncias brasileiras, de norte a sul, rebeliões de grande impacto na história social do país. Pobres e ricos, peões e fazendeiros, indígenas, mestiços, negros e brancos chegaram a se unir contra o governo central, sediado no Rio de Janeiro. Mas seus objetos não eram os mesmos: enquanto as elites das províncias exigiam maior autonomia, os indígenas, negros e brancos pobres lutavam por liberdade e uma vida melhor.

A Cabanagem
        A província do Grão-Pará, na época da Cabanagem, abrangia terras dos atuais estados do Pará, Amapá, Roraima, Rondônia e Amazonas e tinha uma população estimada em 120 mil habitantes.
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ILUSTRAÇÃO DA GUERRA DE CABANAGEM
        A economia do Grão-Pará baseava-se na exploração das drogas d sertão (castanha-do-pará, cacau, baunilha), de madeiras e de ervas medicinais e na pesca. Os trabalhadores da região eram, em sua maioria, muito pobres, viviam em cabanas e trabalhavam para os fazendeiros ou para os comerciantes portugueses e ingleses, que controlavam o comércio da região. Boa parte desses comerciantes residia em Belém, condições de trabalho e o alto custo de vida.
        Os fazendeiros também estavam insatisfeitos por dois motivos: o presidente da província, nomeado pelo governo central, era quase sempre favorável aos portugueses e, além disso, não se importava com os problemas da população.
        Reagindo a essa situação, em 1835, homens ricos e influentes, aliados aos cabanos, invadiram o Palácio do Governo, em Belém, e entregaram a chefia do primeiro governo cabano ao fazendeiro Félix Melcher. Iniciava-se assim a Cabanagem. Melcher, porém, traiu o movimento e prometeu fidelidade ao futuro imperador. Diante disso, outro líder da revolta, Francisco Vinagre, venceu Melcher pelas armas e assumiu o segundo governo cabano.
        Vinagre, no entanto, acabou fazendo o mesmo que Melcher e entregou governo da província à autoridade enviada pelo governo regencial sediado no Rio de Janeiro. Mas os cabanos continuaram resistindo no interior. Sob a liderança de Eduardo Angelim, penetraram a região pelos rios, aliciaram ribeirinhos e, fortalecidos, retomaram Belém.
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PADRE FEIJÓ 
        O governo do padre Feijó, por sua vez, enviou ao Grão-Pará, em 1836, uma esquadra comandada pelo brigadeiro Soares d’Andrea, que retomou a cidade de Belém. A repressão à cabanagem foi brutal. Soares mandou prender e fuzilar cabanos sem julgamento prévio.
        Cerca de 30 mil pessoas (40% da população da província) foram mortas. Os últimos grupos se renderam somente em 1840. Os cabanos chegaram ao poder, mas não conseguiram conservá-lo: as divergências entre seus líderes, a falta de um programa de governo, a inferioridade bélica e uma epidemia de varíola que se alastrou por Belém naquela época contribuíram para o fim da rebelião.

A Guerra dos Farrapos
        O mais duradouro movimento rebelde do Império foi a Guerra dos Farrapos, ocorrida no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina entre 1835 e 1845. A população da província de São Pedro do Rio Grande era de cerca de 150 mil pessoas, das quais somente 10% viviam em Porto Alegre, sua capital.
        No interior, a base da economia era a criação de gado e a produção de charque (carne salgada). Estancieiros e charqueadores lideravam aquela sociedade militarizada que se formou durante os constantes conflitos com os castelhanos nas terras ou nas fronteiras do Rio Grande do Sul. O charque, o gado, bem como outros produtos gaúchos, como ouro, sebo e graxa, eram vendidos a outras províncias brasileiras do Centro-Sul e do Nordeste. Ou seja, a produção gaúcha destinava-se sobretudo ao mercado interno.
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ILUSTRAÇÃO DA FARROUPILHA
      
        Ocorre que o governo brasileiro cobrava altas taxas do charque rio-grandense e baixas taxas do charque platino importado. Além disso, sobretaxava o sal que os rio-grandenses importavam para fazer seu charque, levando-os a se sentirem duplamente prejudicados. Os rio-grandenses reclamavam também que os presidentes de província nomeados pelo governo eram quase sempre alheios aos seus interesses e que o Rio Grande do Sul servia apenas como fornecedor de cavalos e homens às tropas do governo nos constantes conflitos por terra e gado na região platina.
        Em 20 de setembro de 1835, os farroupilhas, liderados pelo estancieiro Bento Gonçalves, romperam com o presidente da província e invadiram Porto Alegre, dando início à Guerra dos Farrapos.
        Em 1836, após importantes vitórias sobre as tropas legalistas, os farroupilhas proclamaram a República Rio-Grandense.
        Em outubro daquele ano, no entanto, vários chefes farroupilhas foram presos, entre eles Bento Gonçalves, que foi levado para a Bahia. Mesmo preso, ele foi eleito presidente dessa República, cuja capital era a cidade de Piratini. No ano seguinte, com o auxílio da maçonaria, Bento Gonçalves fugiu da cadeia e reassumiu o comando das forças farroupilhas, que, na época, já contavam com o apoio do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi. Os farroupilhas invadiram, Canabarro fundaram a República Juliana. Pesquisas recentes indicam que a população de Laguna, em Santa Catarina, colaborou com os rebeldes fornecendo-lhes suporte e participando efetivamente da luta.
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BARÃO DE CAXIAS
        Em 1842, o Império enviou ao Sul milhares de soldados sob o comando de Luís Alves de Lima e Silva, o Barão de Caxias, para pressionar os chefes daquele movimento que reunia, sob uma mesma bandeira, desde fazendeiros até peões e ex-escravizados. Os farroupilhas não se renderam.
        Então, para pôr fim à guerra, Caxias, que representava o braço armado do Império, propôs a chamada “paz honrosa”. Por meio deste acordo de paz assinado em 1845:
o   Os rio-grandenses ganharam o direito de escolher seus presidentes de província;
o   Os comandantes farroupilhas poderiam passar ao Exército brasileiro com os mesmos postos que ocupavam nas tropas rebeldes;
o   O charque platino pagaria 25% a mais de impostos para entrar no mercado brasileiro;
o   O governo imperial reconheceria a liberdade dos escravos que lutaram nas frças farroupilhas como soldados.

A Revolta dos Malês
        Salvador, em 1835, possuía cerca de 65 mil habitantes. Essas pessoas tinham entre si diferenças profundas na maneira de trabalhar, tirar folga e orar. A origem, a condição social e a cor da pele eram outras diferenças importantes para compreendermos por que, na Bahia do século XIX, uma maioria de negros e mestiços era oprimida por uma minoria de brancos.
        Escravizados ou libertos, os africanos eram as maiores vítimas dessa opressão. Muitos resistiam a isso organizando comunidades de terreiros para cultuar os orixás, os voduns ou os espíritos ancestrais. Outros aderiram ao catolicismos e o praticavam à sua maneira. Outros ainda optaram pelo chamado culto malê, que vinha se tornando popular na capital baiana.
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        O culto malê era uma combinação de elementos das religiões africanas e dos princípios muçulmanos contidos no Corão (o livro sagrado dos muçulmanos). Os malês não comiam carne de porco, jejuavam às sextas-feiras e, uma vez por ano, faziam uma dieta especial à base de inhame, língua de vaca, arroz, leite e mel. O tempo de duração desse sacrifício é conhecido como Ramadã (mês do jejum muçulmano).
        Os negros, escravizados ou livres, eram explorados no trabalho, desprezados por sua cor e perseguidos por causa de suas religiões. Todos entraram no Brasil como cativos e tinham motivos de sobra para deixar de lado diferenças de origem e religião e lutar contra seus opressores.
        A data escolhida foi 25 de janeiro de 1835, um domingo, dia de homenagem a Nossa Senhora da Guia. A luta pela Bahia durou a noite inteira. Agitando espadas, facas e lanças, os negros enfrentaram soldados armados com garruchas, que fugiam do corpo a corpo, atirando neles dentro do quartel.
        Cerca de 50 africanos morreram durante os combates e muitos outros ficaram feridos, vindo a falecer posteriormente. O tribunal que julgou os rebeldes procurou provar a superioridade dos brancos sobre os negros, dos homens de posses sobre os escravos, da religião católica sobre as outras. Qualquer objeto da África encontrado pela polícia baiana era considerado criminosos. Além dos abadás, rosários e escritos religiosos dos malês, as autoridades apreenderam atabaques, colares de búzios, panos de costa, entre outros.
        Sufocada a rebelião, os vencedores se lançaram à vingança. Em março de 1835, centenas de africanos libertos foram mandados de volta para a África. A maioria voltou para os lugares de onde veio; Lagos, Nigéria e Daomé. Essas pessoas tinham trabalhado muitos anos para conseguir comprar a carta de alforria. Agora, mesmo os considerados inocentes, eram ilegalmente expulsos da Bahia. O objetivo das autoridade, segundo o historiador João José Reis, era o branqueamento da sociedade livre baiana.
       
A Sabina
        Na Bahia, era grande a insatisfação com a política centralizadora do governo instalado no Rio de Janeiro. Os principais motivos dessa insatisfação eram: o envio obrigatório de rendas para o Rio de Janeiro; a necessidade de fornecer soldados para lutar no sul; e a prolongada crise de abastecimento que provocava carestia e fome.
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FERNANDO SABINO VIEIRA
        Em salvador, o jornal Novo Diário da Bahia, do médico e jornalista republicano Fernando Sabino Vieira, o dr. Sabio, intelectual e conhecedor das ideias iluministas, era o principal porta-voz da oposição ao governo. Em 7 de setembro de 1837, reagindo á notícia de que os baianos seriam convocados para lutar contra os farroupilhas, militares rebeldes tomaram o Forte de São Pedro, em Salvador, obrigando o presidente da província a fugir da cidade. Tinha início a Sabinada, revolta cujo nome se deve ao seu principal líder, Francisco Sabino.
        Os sabinos proclamaram a independência, mas logo declararam que ela duraria somente até a maioridade de Dom Pedro II. A reação partiu do Recôncavo, onde os proprietários locais organizaram um governo paralelo na cidade de Cachoeira, controlado pelas forças legalistas, e outro em Salvador, comandado pelos sabinos.
        O governo central então decidiu agir: enviou forças que se juntaram ás do Recôncavo e cercaram Salvador por terra, enquanto a Marinha Imperial bloqueava a cidade por mar. Diante do cerco a Salvador e da falta de alimentos, os rebeldes convocaram os escravizados para lutar ao lado deles. Muitos, porém, não atenderam a esse apelo, pois não viam a Sabinada como uma luta deles. De sua parte, muitos proprietários, assustados com a possibilidade de perder seus escravos, passaram a defender o governo central.
        Com cerca de 4 mil homens, as forças legalistas invadiram a capital baiana e promoveram um verdadeiro massacre. O tribunal que julgou os sabinos ficou conhecido como “júri de sangue”, pois os condenou em massa. Francisco Sabino Vieira foi expulso da Bahia com os outros líderes que sobreviveram ao massacre.

A Balaiada
        Ocorrida nas terras do atual Estado do Maranhão e do Piauí, entre 1838 e 1841, a Balaiada teve suas raízes na luta da população pobre contra a opressão, na luta dos políticos provinciais por autonomia em relação ao Império, nos conflitos por hegemonia na respectiva província e também nas dificuldades econômicas enfrentadas pelo Nordeste no período regencial.
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        Quando regente Araújo Lima foi eleito, os conservadores assumiram os principais postos no Maranhão, inclusive o de presidente da província, passando a usar o recrutamento forçado para enfraquecer os liberais, apelidados na região de bem-te-vis.
        Nesse contexto, um grupo armado chefiado pelo vaqueiro Raimundo Gomes assaltou a cadeia da Vila do Manga e libertou vários companheiros que estavam presos. A seguir, o grupo lançou um manifesto em que se declarava inimigo dos portugueses e exigia a demissão do presidente da província.
        Enquanto o grupo de Raimundo Gomes percorria o interior apoderando-se de várias localidades, o movimento ganhava novos líderes, a exemplo do artesão mestiço Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio, e o negro Cosme Bento das Chagas, que liderava 3 mil quilombolas fugidos das fazendas maranhenses. Fortalecidos, em meados de 1839, os balaios conquistaram Caxias, a segunda maior cidade do Maranhão, e avançaram em direção a Piauí, onde, com a ajuda da população local, venceram tropas oficiais enviadas para combatê-los.
        Inicialmente, os políticos liberais incentivaram os balaios, ao mesmo tempo que culpavam os conservadores pela “desordem”; esperavam, com isso, desalojá-los do poder nas próximas eleições. Mas, quando viram que a capital maranhense seria invadida pelos balaios, os liberais se juntaram aos conservadores para pedir reforços ao governo central.
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LUÍS ALVES DE LIMA E SILVA
        Este enviou para o Maranhão cerca de 8 mil homens sob o comando de Luís Alves de Lima e Silva. A repressão ao movimento efetuou torturas, prisões e milhares de execuções sem direito à defesa. Calcula-se que cerca de 11 mil balaios tenham morrido em combate com as tropas imperiais. Quanto aos líderes, Manoel Francisco dos Anjos morreu lutando, Raimundo Gomes foi expulso do Maranhão e Cosme Bento das Chagas acabou preso e enforcado em praça pública para servir de exemplo aos que ousassem desafiar as elites imperiais.


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Moisés Rodrigues
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